Entre o Existir e o Viver

Para Heidegger, filósofo existencialista, existir é estar além de apenas biologicamente vivo, isto é coração batendo, respirando, comendo, se movimentando, entre outros. Isso ele define como viver, enquanto que o existir seria estar consciente da própria existência, ou seja, se questionar, pensar, fazer escolhas, assumir responsabilidades, estar ativamente implicado e envolvido em mundo cheio de sentidos, possibilidades, incertezas e atribuir também estas mesmas coisas, ou seja, seria responder e estar consciente da própria existência. Em outras palavras, segundo Heidegger, viver é uma condição biológica e existir é uma condição humana.

É possível aplicar essa lógica dentro do funcionamento de relacionamentos, sejam estes de qualquer tipo, à medida que o vínculo estabelecido fique apenas em um nível superficial (viver). As pessoas convivem, compartilham rotinas, dividem tarefas e mantêm a relação funcionando quase de modo automático. Há um afastamento do sentido do vínculo com o outro, uma desconexão emocional e de presença ativa. O existir em um relacionamento significa escolher estar ali, reconhecer limites, assumir responsabilidades sem se anular e construir sentidos compartilhados. Trata-se de um encontro entre duas consciências que se reconhecem e se implicam mutuamente.

Essa distinção ajuda a compreender o burnout nos relacionamentos. O burnout pode surgir quando alguém permanece apenas no modo do “viver” a relação, isto é, cumprindo funções, oferecendo apoio constante, resolvendo conflitos e sustentando o vínculo, mas sem encontrar sentido ou reciprocidade no que está fazendo. A pessoa continua presente, mas internamente está esgotada e desconectada. O relacionamento deixa de ser escolha e passa a ser um peso que vai drenando mais e mais energia, deixa de ser espaço de construção de significado e torna-se uma sequência de exigências/obrigações.

Nesse contexto, o burnout pode ser entendido como um esvaziamento existencial, em que há um excesso de responsabilidade sem propósito, doação contínua sem reconhecimento, ausência de espaço para a própria autenticidade. A pessoa passa a sentir um cansaço constante ao pensar ou interagir com o outro, como se a relação exigisse mais energia do que ela é capaz de oferecer, pequenas começam a gerar irritação desproporcional. Aos poucos, surge um distanciamento afetivo, diminuem o carinho, o interesse genuíno e a vontade de compartilhar momentos. O que antes era espontâneo passa a parecer pesado.

Outro sinal frequente é a sensação de obrigação, em que se permanece na relação mais por um “dever”, o que leva a pessoa a sentir-se incapaz de mudar algo e presa dentro do relacionamento. Também, pode haver a percepção de que um oferece muito mais do que o outro, ao perceber a falta de reciprocidade emocional, de apoio ou de reconhecimento, o sentimento de estar sozinho em um vínculo que é composto por 2 pessoas cresce.

Ao mesmo tempo, começa a negligenciar as próprias necessidades colocando sempre o do outro em primeiro lugar, anulando-se e passando por cima de limites, que agem como uma barreira protetora para o bem-estar do indivíduo. O burnout emocional leva a pessoa a ficar esgotada, paralisada, sobrecarregada e sem energia para continuar investindo no vínculo e até mesmo nela em si. Não é fácil lidar com esse esgotamento mental e afetivo, por isso buscar ajuda profissional e acolhimento se tornam centrais para que os problemas advindos do burnout sejam discutidos e refletidos, de forma que o indivíduo se construa novamente a partir da dimensão do existir.

 

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Me chamo Maria Vitória Nogueira Bezerra, formada no Centro Universitário Doutor Leão Sampaio (UNILEÃO), atuo com a abordagem da gestalt-terapia.

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