Compreendendo um pouco da Gestalt-terapia

Um dos principais pontos ao se discutir sobre o que é ou como funciona o modelo terapêutico da Gestalt-terapia (GT) é fazer um retorno à fenomenologia, ao existencialismo e ao humanismo. Conforme Santos et al. (2020), estas 3 correntes teóricas são pilares fundamentais na concepção filosófica da GT, mas não só delimitados a eles como menciona Tessaro (2023), este que destaca a influência de visões da Teoria Organísmica e Teoria Holística, além da psicologia da Gestalt também.
O foco da Gestalt-terapia é em presentificar a experiência sem separar os aspectos emotivos dos racionais, tendo como premissa a ideia de trabalhar o ser humano como um organismo total e como isso impacta na percepção do indivíduo diante de sua própria experiência no mundo. Com o surgimento na década de 40, a GT tem grande influência do humanismo à medida que procura conscientizar o sujeito sobre si mesmo e seu poder de agir, sobre sua liberdade de escolha, o que isso significa, além das consequências que podem ser geradas. Trata-se, portanto, de focar não só no potencial de crescimento do indivíduo, mas também da experiência subjetiva do próprio processo (Santos et al., 2020).
Segundo Castañon (2007), é preciso considerar que o próprio humanismo é influenciado pelo existencialismo e a fenomenologia, e que isso implica um suporte essencial dessas teorias no desenvolvimento e funcionalidade, ou seja, como se estrutura e reflete, no pensamento da gestalt-terapia. A fenomenologia é uma corrente filosófica que trouxe a ideia de compreender a experiência a partir de como ela se apresenta, sem julgamentos prévios. O fenômeno é ligado diretamente à experiência e de como que esta é sentida, elaborada e percebida pelo indivíduo a partir de sua relação com o mundo. Conforme Tessaro (2023), a fenomenologia influencia a GT ao valorizar a experiência imediata e como o ser humano percebe e vivencia a realidade.
O existencialismo parte da ideia de que não existe uma essência inerente ao ser humano que o faça ser algo, não tem uma finalidade já premeditada. As características dos indivíduos são adquiridas a partir de suas vivências, considerando que a liberdade e responsabilidade do indivíduo permite que este construa sua existência nas relações com o mundo. Segundo Santos et al. (2020), é possível perceber elementos existencialistas dentro da GT em questões desta acreditar na responsabilidade do indivíduo sobre a própria escolha, e, portanto, agente capaz de agir dentro da própria vida.
A Teoria Holística, como mostra Lima (2008), é outra base filosófica importante para a Gestalt-terapia e que influenciou fortemente Fritz Perls – um dos fundadores da GT -, em que Perls seguiu a linha de raciocínio holística a partir de Smuts (Karpen, 2018). Os preceitos de Smuts, segundo Lima (2008), se baseiam na ideia de que o indivíduo é um sistema total, no sentido de que os componentes que formam o ser humano não atuam independentemente e sim como um conjunto, com suas próprias regras de funcionamento.
Ainda conforme o autor, uma das principais características é em relação a como o sujeito interage com o ambiente, em que o meio é assimilado não passivamente pelo ser humano, mas sim a partir de um “filtro” – filtro no sentido de como que os eventos externos a nós passam pela nossa subjetividade, de que forma é percebido o mundo – para então de fato assimilar os fenômenos do ambiente e se adaptar a ele.
Dado o exposto, pode-se ver que questões como considerar a totalidade do ser humano (mente, emoções, aspecto físico, espiritual), a influência do ambiente no indivíduo, e a capacidade deste de se auto regular quanto ao meio como preceitos fundamentais também dentro da GT (Santos et al., 2020). Em que o foco é a experiência total do momento presente, visando o equilíbrio entre essas partes, portanto a Gestalt-terapia, segundo Aguiar (2014), possibilita a compreensão de que a pessoa está sempre se reorganizando, isto é, o ambiente e o sujeito estão em constante troca e que a cada nova experiência, há a adaptação, crescimento e desenvolvimento de novas habilidades.
Como é ressaltado por Lima (2005), embora as ideias de Kurt Goldstein foram originadas pelo interesse dele de estudar o comportamento humano a partir de um ponto de vista biológico (foco em estudos de como as patologias afetam como um todo o organismo), a estrutura de seu pensamento holístico fundamentou uma visão de “ser” a partir da interação constante de uma troca de experiências entre o indivíduo com o meio. O sujeito, portanto, estaria se implicando no mundo e com os outros.
Complementado por Karpen (2018), estaria assim gerando respostas novas em decorrência das particularidades de cada situação/experiência em função de um ajustamento/adaptação, ou seja, em função de responder às demandas, ao ambiente, tal processo é nomeado ajustamento criativo. Logo, pode se pensar o “ser” (não de indivíduo, mas como implicância de algo) enquanto o processo de contato que envolve o estranho, inédito em que o indivíduo tem a liberdade de atuar a partir de sua própria subjetividade. A questão desse ajustamento criativo é um conceito importante para a GT pois indica a uma capacidade do ser humano se transformar – construção de novos repertórios comportamentais – continuamente por conta da plasticidade cerebral (Joyce; Sills, 2016). Pois, como mostra Papalia e Feldman (2013), a plasticidade cerebral é a capacidade que o cérebro tem de adquirir novas experiências, de aprender coisas novas, de desenvolver novas habilidades.
Diante do mencionado, a Teoria Organísmica engloba a visão holística, em que juntas se complementam para criar uma concepção do ser humano em que considera este como um todo indivisível que visa um crescimento progressivo, em que, conforme Lima (2005), Goldstein acreditava o organismo era regido através de uma tendência inata de se atualizar. Dentro da GT esse é um conceito primordial e central, em que a auto atualização seria responsável por dirigir o indivíduo a buscar saciar suas necessidades (Lima, 2005).
A visão fenomenológica permeia bastante dos conceitos já vistos até o momento, exatamente por destacar o ser humano como protagonista e ativo dentro da própria experiência. De acordo com Yontef (1998), a GT não procura ser uma resposta universal para algum problema ou rotular o indivíduo em algo, mas sim procurar entender os fenômenos a partir do campo total em que ocorre, ou seja, dentro do contexto completo. Ainda segundo o autor, a exploração desse campo total, isto é, de observar e compreender os fatores internos e externos que estão interagindo entre si, se nomeia Teoria de Campo.
Segundo Spink (2003), a Teoria do Campo foi formulada por Kurt Lewin, e “campo” aqui não é denominado como lugar físico e sim como método para analisar os aspectos psicológicos, as forças de tensão – o que impulsiona ou suprime o surgimento de um comportamento – e o contexto do campo. Conforme Santos et al. (2020), embora não foque necessariamente no desenvolvimento emocional do sujeito ou mesmo na área clínica em si, ainda convém para explicar o comportamento integrando a ideia da interação ambiente-sujeito, o que veio a ser fundamental para a Gestalt-terapia.
A abordagem ds Gestalt-terapia também se baseia nos princípios da Psicologia da Gestalt. A palavra Gestalt pode trazer confusões acerca de seu significado por não ter uma tradução literal do termo que se adapte para outras línguas – português incluído nisso -, mas a ideia foi de englobar a Gestalt enquanto uma percepção não restrita a um campo visual ou sensorial apenas, mas englobando tudo aquilo que se passe pela experiência humana, ou seja, tudo aquilo que sentimos, pensamos e vivemos de forma integrada (Schultz; Schultz, 2019), “ […] implica uma ação prevista, em curso ou acabada, que implica um processo de dar forma, uma ‘formação’” (Ginger; Ginger, 1995, p. 13).
Segundo Ming-Wau et al. (2019), a psicologia da gestalt vê o ser humano como um todo, e não apenas como uma soma de partes separadas. Então, a percepção ou entendimento de algo envolve um contexto maior – emocional, psicológico, sensorial, social – e não apenas uma reação pontual a um estímulo visual, por exemplo. Portanto, a Gestalt considera a percepção como um processo ativo, onde as partes são organizadas em um todo significativo.
Diante do que foi mencionado até o momento, é notável que a GT tem grandes fundamentos teóricos que embasam a maneira em como o funcionamento humano é compreendido. Dado o exposto, a GT se trata de uma abordagem humanista com Fritz Perls como maior expoente. A abordagem foca na experiência imediata e no momento presente, com objetivo de ajudar o indivíduo, a partir da tomada de consciência do todo dentro da interação meio-organismo, a perceber a experiência tanto no aspecto subjetivo (como percebeu) quanto no objetivo (o que aconteceu) de forma a ajudar o indivíduo a perceber seus padrões de comportamentos e pensamentos (Lima, 2005).

 

 

Referências utilizadas:

AGUIAR, L. Gestalt-Terapia com crianças: teoria e prática. ed. 4, São Paulo: Summus Editorial, 2014.

 

CASTAÑON, G. A. Psicologia Humanista: a história de um dilema epistemológico. Memorandum: Memória e História em Psicologia, online, v. 12, p. 105–124, 2007. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/memorandum/article/view/6714. Acesso em: 2 mar. 2025.

 

GINGER, S.; GINGER, A. Gestalt: Uma terapia do contato, ed. 2. São Paulo: Summus Editorial.

 

JOYCE, P.; SILLS, C. Técnicas em Gestalt: Aconselhamento e psicoterapia. ed. 1. São Paulo: Vozes.

 

KARPEN, M. F. S. Des-envolver humano: ampliação de campo para Gestalt-Terapia. Revista NUFEN, Belém , v. 10, n. 2, p. 108-126, 2018. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175-25912018000200008. Acesso em: 4 mar. 2026.

 

LIMA, P. V. de A. Teoria organísmica. IGT na Rede, online, v. 2, n. 3, p. 1-10, 2005. Disponível em: https://igt.psc.br/ojs3/index.php/IGTnaRede/article/view/44. Acesso em: 5 mar. 2026.

 

LIMA, P. V. de A. O holismo em Jan Smuts e a Gestalt-terapia. Revista abordagem gestalt, Goiânia , v. 14, n. 1, p. 3-8, 2008. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672008000100002. Acesso em: 5 mar. 2026.

 

MING-WAU, C. et al . A clínica gestáltica sob a ótica do psicoterapeuta iniciante. Revista NUFEN, Belém , v. 11, n. 1, p. 22-38, 2019. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175-25912019000100003. Acesso em: 6 mar. 2026.

 

PAPALIA, D. E.; FELDMAN, R. D. Desenvolvimento Humano. ed. 12. Porto Alegre: McGraw, 2013.

 

POLSTER, E., POLSTER, M. Gestalt-terapia integrada. São Paulo: Summus Editorial, 2001.

 

SANTOS, M. A. dos et al. Psicoterapia de abordagem gestáltica : um olhar reflexivo para o modelo terapêutico. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 32, n. 2, p. 357-386, 2020. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S0103-56652020000200009. Acesso em: 3 mar. 2026.

 

SCHULTZ, D. P.; SCHULTZ, S. E. História da Psicologia Moderna. ed. 10. São Paulo: Cengage.

 

SPINK, P. K. Pesquisa de campo em psicologia social: uma perspectiva pós-construcionista. Psicologia & Sociedade, v. 15, n. 2, p. 18–42, 2003. Disponível em: https://www.scielo.br/j/psoc/a/nSkXqD7jKvgdrTFYGmTF8gP/abstract/?lang=pt. Acesso em: 4 mar. 2026.

 

TESSARO, L. G. S. Aproximações entre a Terapia Cognitivo-Comportamental e a Gestalt-Terapia: uma Revisão Sistemática de Literatura. Psicologia Argumento, online, v. 41, n. 115, p. 3819-3841. 2023. .Disponível em: https://periodicos.pucpr.br/psicologiaargumento/article/view/30478/26409. Acesso em: 3 mar. 2026.

 

YONTEF, G. M. Processo, diálogo e awareness: ensaios em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus Editorial. 1998.

 

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Me chamo Maria Vitória Nogueira Bezerra, formada no Centro Universitário Doutor Leão Sampaio (UNILEÃO), atuo com a abordagem da gestalt-terapia.

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