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Bom, tentarei resumir ao máximo. Vamos lá.
Eu moro com meus pais e confesso que a convivência com meu pai nunca foi perfeita. Por mais que ele sempre tenha sido o provedor da casa, era uma pessoa difícil: tudo tinha que ser do jeito e na hora dele. Fora que ele era aquele tipo de homem que “sabia viver”: viajava muito com outras mulheres, se envolveu com várias, inclusive com vizinha e até com amiga da minha mãe. E sempre desfez dela. Coitada, sempre submissa a ele, ainda mais porque era sustentada por ele e não tinha uma saúde boa. Como dependia do plano de saúde, aceitava essas humilhações. Precisou fazer várias cirurgias, mas ele não cuidou dela. Quem cuidava eram meus avós e, depois que fiquei mais velha, eu.
Enfim, ele já tirou dinheiro de casa várias vezes para reformar casa de amante, comprar notebook e dar outras coisas. Já chegamos a não ter dinheiro para comprar carne. Com o tempo ele mudou um pouco, mas continuou sendo mulherengo.
Ele me ajudou com os estudos, graças ao empurrão dele consegui me formar e fazer faculdade, mas eu mesma pagava. A gota d’água foi quando ele teve um AVC. Foi um susto enorme. Parecia que meu mundo ia acabar. Mesmo ele não sendo um pai carinhoso ou presente — porque, mesmo morando na mesma casa, ele não era de conversar, levar para sair nem nada — eu fiquei com medo de perdê-lo. Afinal, ninguém deseja isso nem para um inimigo.
Foi muito complicado. Como ele já era uma pessoa difícil, depois do AVC ficou mais agressivo. Começou a tratar mal todas as pessoas que cuidavam dele, inclusive eu e minha mãe. Gritava, humilhava, não deixava a gente descansar. Mesmo eu trabalhando, passei várias noites em claro porque ele me chamava várias vezes por qualquer coisa. Foi um momento muito desgastante.
Ele começou a sentir raiva da minha mãe, mesmo ela tendo socorrido ele — até porque, um dia antes, ele tinha viajado com a amante e, quando voltou, teve o AVC. Ele não queria que minha mãe cuidasse dele, queria que fosse essa mulher com quem viajou. Rejeitou minha mãe no hospital, queria proibir que ela cuidasse dele na casa da minha avó. Mesmo ele negando, ela ficava lá.
Enquanto isso, ele, mesmo sem andar, ficava planejando casar com essa mulher. Depois, voltou para casa porque brigou com a amante por erro dele. Nesse tempo, colocou o dedo na minha cara, me ameaçou bater porque eu não podia falar nada, tinha que aceitar tudo e fazer o que ele queria. Se eu fosse contra, ele virava um bicho.
Minha mãe continuou cuidando dele em casa, mesmo sendo humilhada e chamada de burra e de tudo quanto é nome. Chegou um ponto em que ela ficou com medo de ficar sozinha com ele. Só ficava quando eu chegava do trabalho; fora isso, ia para a casa da mãe dele com medo. Ficou assim uns quatro dias.
Então ele expulsou a gente de casa e me deu um soco no rosto porque eu falei que ele tinha amante, sim, e que ele estava mentindo e se fazendo de vítima. Meu mundo caiu. Saí de casa só com a roupa do corpo, sem ter para onde ir. Fui à polícia para que me acompanhassem buscar algumas peças de roupa. Fiquei dois meses de favor na casa de outras pessoas até conseguir um lugar e começar do zero com minha mãe.
Graças a Deus tivemos ajuda e conseguimos, mesmo que simples, algumas coisinhas para morar.
Depois de quatro meses, ele ficou sozinho e a saúde dele piorou, porque não se cuidou como quando estava com a gente. Emagreceu muito. Mas, depois de tudo, não sinto no meu coração que devo voltar a cuidar dele. Foram muitas humilhações.
Se ele tivesse casado com aquela mulher ou estivesse 100%, será que iria querer a gente de volta? O problema são os julgamentos. Ele se faz de vítima, como se não tivesse expulsado a gente, mas eu tenho prova — fiz corpo de delito. Mesmo assim, tem gente que acha que devemos aceitar e cuidar dele como se nada tivesse acontecido.
Um grupo de apoio emocional e saúde mental. Desabafos anônimos, troca de experiências e apoio psicológico.
Oi querida. Não tenho palavras para expressar o alívio que me deu ao fim desse texto, saber que sua mãe e você estão de alguma forma em segurança, recomeçando e construindo a vida que vocês podem agora. Não consigo imaginar o sentimento e a mistura mental que é viver nesse conflito, pois apesar de tudo é seu pai. Mas algo que devemos ter ciência é que não podemos salvar ninguém, principalmente os que não querem ser salvos. Você fez muito, muito mesmo. Eu em seu lugar não teria movido um dedo jamais nem no primeiro sintomas. Mas imagino que seu coração é puro e sua alma mais ainda. Porém, sangue não torna ninguém família. Voce não é responsável por seu pai, apenas por si mesma. Ele fez as escolhas dele, há muito tempo atrás pelo que li. Então cabe a ele a lidar com a consequência dessas escolhas, e não mais você e sua mãe. Espero que fique bem, que se cuide e que esteja em segurança junto com sua mãe. Muito amor e luz para vocês.