juliafff

Me casei por dinheiro.

Me chamo Julia, tenho 31 anos, sou negra e vivi até os 29 anos morando em uma casa onde não queriam minha presença. Quando eu nasci, minha mãe biológica me abandonou e me deixou com o meu pai, que, quando fiz 19 anos, ele encontrou uma mulher que se dizia evangélica na internet, e foi me afastando dele, alegando que eu era do capeta porque eu me vestia de uma forma diferente, afinal eu estava saindo da adolescência e cá entre nós, adolescentes se vestem diferente porque querem pertencer a um grupo. Porém, a família do meu pai é toda branca, e ela mandou que ele pedisse para fazer um teste de DNA. Tudo bem, eu fiz e o resultado foi que ele não é o meu pai biológico, e aparentemente nem do coração, porque ele parou de falar comigo. Eu vivia na casa dos pais dele a vida toda, ele era jovem, tinha 20 anos quando eu nasci e foi enganado. Eu, com 19 anos, me vi como uma intrusa na casa da minha “vó”, sozinha, porque eu era muito humilhada por todos lá. O meu primo tinha abusado de mim algumas vezes quando eu era criança e adolescente, e eu acho que acabei me esquecendo de muitas coisas porque eu me recordo de forçar a esquecer situações. Esse primo também me batia e todos defendiam ele, até que um dia ele tentou me enforcar e eu chamei a polícia, resultado: todos ficaram com raiva de mim. Assim que o resultado do DNA saiu, a mulher do meu pai entrou em contato com minha mãe biológica dizendo que eu iria morar com ela. Me recordo de ter falado com ela no telefone, só que eu não podia ir para uma casa que eu não conhecia ninguém, e que a pessoa tinha me abandonado no passado, eu seria mais uma vez intrusa. Essa mulher do meu pai acabou com minha vida em todos os sentidos, ela me perseguiu e ainda persegue, eu estudava, fazia curso, eu ficava o dia todo fora tentando ser alguém para poder ganhar dinheiro e me manter. Me lembro que consegui uma bolsa em uma faculdade legal, porém precisava de todos os dados das pessoas que moravam na casa, para comprovarem que eu não podia pagar, porém mais uma vez deu tudo errado, eu não pude ingressar. Essa mulher do meu pai ligava para a escola onde eu estudava se passando por minha mãe para saber coisas sobre mim, entrava em contato com meus amigos que ninguém da minha família conhecia para falar mal de mim, eu tive um relacionamento homossexual na época e ela ligava para a família inteira da menina para falar de mim. Eu tinha redes sociais abertas, hoje eu sou invisível, eu não posso ter nada porque ela estará lá esperando a oportunidade para tentar me destruir. Ela é tipo aquelas pessoas que você vê em novelas e não acredita que existem pessoalmente, sabe?! Aquela pessoa que fala de Deus o tempo inteiro, que fala muitas coisas bonitas para as pessoas, mas quando me via sozinha dizia coisas horríveis e fazia aquela voz de demônio para mim, eu não merecia aquilo porque eu nunca fiz mal para essa mulher. Ela nunca deixava o meu pai chegar perto de mim sozinha. Uma vez eu disse que queria conversar sozinha com ele, ela não deixou e ele obedeceu como sempre, ele é uma pessoa claramente submissa, Os pais dele, especialmente o pai dele, eu não gosto de dizer que ele era meu avô porque ele era muito ruim para mim. Sempre tratou todos os netos muito bem, dava dinheiro para eles, eu era a mais nova da turma, naquela época eram famílias que tinham muitos filhos e netos, meu pai trabalhava e eu ficava vendo os meus primos se divertirem, meu avô dava dinheiro para eles comprarem doces, criança gosta de doces, né? Mas ele fazia questão de dar para todos menos para mim. Tinha uma vizinha que adorava uma prima minha loira, e eu sempre brincava muito com ela, era a mais próxima da minha idade. A vizinha chamava só ela para tomar sorvete, era muito ruim. Tinha uma tia que me levava quando via essas injustiças, eu tive uma mãe de criação também que era a irmã do meu pai, outra tia. Porque eu acho que ela me via naquela situação e ficava com dó, ela cuidava de mim, ela me ensinou a ler mesmo não tendo conhecimento acadêmico, me arrumava para ir para a escola, então eu não ia mais com cabelo para o alto e nem suja. Embora tenha tido poucos momentos legais, eu os valorizo. Mas quando entrei na adolescência, as coisas pioraram muito. Eu tinha 12 anos e menstruei pela primeira vez, eu não sabia o que era aquilo, eu não tinha informação. Não me explicaram, eu tive que aprender tudo sozinha. Eu não tinha dinheiro para absorvente, às vezes eu conseguia comprar um pacote e tinha que durar a menstruação inteira, eu não tinha noção de higiene, andava fedendo. Eu, naquela idade, não sabia me comunicar, eu tinha muita vergonha.
Eu, com 14 anos, comecei a ouvir indiretas de que eu ficava muito à toa. Na minha cabeça, eu só precisava arrumar a casa. Eu arrumava, todos comiam e eu tinha que limpar tudo. Às vezes, colocavam minha prima para ajudar, mas ela tinha os benefícios, se ela não quisesse fazer, estava tudo bem. Casa de vó costuma ter muitos netos e eles iriam com muita frequência, mesmo que não morassem lá, embora essa prima tenha morado lá um curto período de tempo, o que me estuprou também morava lá. Eu não sabia que eu tinha que trabalhar, eu não sabia de nada sobre a vida. Até que, com as indiretas que me mandavam, eu arrumei um menor aprendiz, eu comecei a poder comprar coisas de higiene, como finalmente os meus absorventes, escova de dente, prestobarba, escova de dente, tênis, roupas. Eu confesso que não ajudei por um tempo, e aí, como já estava tudo perdido, eu já era a pessoa ruim. Eu comecei a fazer jus à fama. Com 16 anos, eu encontrei uma turminha na escola emo que me “acolheu”, comecei a beber, eu tinha amigos, tinha um emprego, tinha pessoas que gostavam de mim como eu era, tinha um amigo que me ensinou a andar no centro da cidade com um pedaço de mapa, outro amigo que se preocupava se eu tinha comido, andei muito tempo com eles. Claro que com o tempo o grupo se desfez, claro que tudo se desfez menos o vício pela bebida, esse ficou impregnado. Até que fiz 29 anos, eu já estava cansada e frustrada, eu até consegui entrar na faculdade com 26, mas não concluí porque não consegui pagar. Eu já estava desesperada e sem perspectiva de vida, nessa idade já me sentia velha e sem ter conseguido construir nada. Foi aí que finalmente eu conheci um senhor de 64 anos, americano, disposto a casar e ter uma família. Ele veio até o Brasil e se casou comigo imediatamente. Eu consegui sair daquela casa e ele começou a me tratar como um ser humano. Eu não achava e ainda não acho isso certo. Me sinto na maior parte do tempo enojada por ele ter sentido atração por mim sendo tão mais nova que ele. Tudo bem, eu já era adulta, mas mesmo assim o sentimento de repulsa segue presente. Nós não vivemos juntos o tempo todo, ele fica numa escala de EUA x Brasil, mas sempre que ele chega eu não consigo beijá-lo, e ter que fazer relação sexual é horrível. Eu sei que não fiz certo casando por dinheiro, eu vivo uma vida digna em outros sentidos. Ele tem muito mau cheiro, não gosta de escovar os dentes e é difícil ter relação com alguém assim, sem falar da idade. Eu me sinto mal porque eu não deveria falar assim dele, eu nunca o traí, eu sou muito caseira, mas já senti vontade de só beijar outras pessoas porque beijar ele eu fiz isso uma única vez e não consegui fazer mais, foi um dos piores sentimentos que já senti. Uma pessoa que me dá uma vida boa, que faz tudo para me ver feliz, eu sou grata… mas me sinto mal por sentir esses sentimentos por ele. Eu queria fazer sexo com outro homem ou simplesmente beijar outra pessoa, mas eu me sinto uma cretina se eu fizer isso. Moro em um apto alugado, ele paga as coisas… Tenho muito medo, mas também estou um pouco desesperada. Mas mesmo depois de toda essa minha vida cheia de problemas, eu finalmente agora estou longe daquele ambiente e tendo uma vida mais tranquila, eu consegui largar o álcool, não sei se é uma coisa definitiva, mas tem um bom tempo que não bebo, eu consegui me cuidar, e posso dizer que no mais eu sou muito feliz. Mas sinto atrações por outras pessoas. Eu não sei o que eu quero nesse site, talvez eu só quisesse falar, eu só contei 1 pequeno pedacinho da minha história porque não tem como falar sobre tudo. Sei que cada um tem sua história, não quero ser uma vitimista, eu também já fiz muitas coisas ruins na vida, mas isso que contei aqui eu nunca falei para ninguém

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  • agosto 30, 2025
    BrunaOliveira

    Imagina, @juliafff!!! Estou aqui para te apoiar, sem julgamentos e exposições. 🤍 Fico feliz que minhas palavras tenham feito sentido, e te desejo muita força e carinho nesse processo.

  • agosto 28, 2025
    juliafff

    Obrigada, @BrunaOlveira, pelas palavras, eu só fui digitando e não pensei que alguém responderia. É um pouco assustador agora saber que alguém leu isso, kkk, mas te desejo tudo de bom.

  • agosto 28, 2025
    BrunaOliveira

    Oii, Júlia!! Tudo bem? Li sua história e quero te dizer algo de coração: você já enfrentou situações muito pesadas e difíceis, mas mesmo assim seguiu em frente. Só o fato de você ter saído daquele ambiente em que vivia já é uma grande conquista. Você é mais forte do que acredita. O que você passou exigiu muita coragem, e essa coragem continua dentro de você. Só de você ter contado isso, mesmo em um site e sem saber o que esperar, já é um ato de coragem enorme. Isso mostra que você está dando passos importantes para se cuidar e se curar, mesmo que ainda esteja descobrindo o que quer. Você merece viver do jeito que deseja, com leveza, sem carregar tanto peso sozinha. Se você sentir que precisa de um apoio mais próximo para lidar com tudo isso, conversar com um profissional de confiança pode ajudar bastante. Estou torcendo por você! 💛

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