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vivi999

pensamentos que não falo em voz alta pq com certeza piorariam tudo

Talvez eu devesse escrever, com palavras, o que silenciosamente repito a cada segundo do dia, mas que temo profundamente dizer em voz alta.
Quando olho meu quintal, vejo o sol cobrindo as árvores, o vento unindo todas as coisas numa dança. Eu sei, eu sei que a vida é bonita. E me sinto sóbria. Mas não estou. É impossível estar. Desde que nasci, o veneno da civilização infectou minha alma com o desejo de não ter nascido.
Que culpa tenho eu? Se não tenho toda, tenho ao menos toda a responsabilidade por mim mesma. O que fazer com minha vida de ser humano terrestre? Que tal uma faculdade? Um emprego? Que tal um amor, depois outro amor, depois mais um e, então, tudo outra vez? Ou quem sabe a solidão eterna?
Perderás amigos, perderás família. Perderás pai, mãe, avô, avó. E serás tu, então, o alicerce de alguém?
Lembro-me de que, aos 15 anos, escrevia cartas e mais cartas de desabafo, chorando, com uma dor que parecia não ter fim. Não me lembro do motivo daquela dor naquela noite. Mas hoje sei que a dor acaba. E, quando ela se vai, a felicidade não entra pela porta gritando bom dia. Você sai do fundo do mar e percebe que, fora dele, existe um imenso deserto de areia. Você pega algumas caronas, encontra algumas companhias. Mas ali não é muito diferente do fundo do mar.
Às vezes, uma voz que tento não fazer minha me diz que a vida é uma piada de mau gosto.
Animais lúcidos. Construindo prédios, pontes. Animais em decadência, chapados, bêbados, drogados. Animais raivosos. Animais que sentem amor.
O que aconteceu na Grécia Antiga? Cadê a ferocidade humana de Luiz Gama? Algo alterou o gene da espécie? Ou será a boa e velha decadência da cognição que acompanha a cultura depravada?
Irei morrer só. Você também.
Penso no sofrimento pelo qual passaram os camponeses nas Índias, nas mulheres queimadas, mortas. Os escravizados foram torturados e forçados a viver aquela vida. Lembro-me de que alguns pulavam dos barcos. Mas eu não tenho um navio para pular no mar como último ato de liberdade.
O que tenho são avós, irmãos, colegas. Que trabalham, que lutam, que comem, dormem e seguem para outro dia. Alguns que tiveram e tem a vida pior q minha, problemas piores que os meus, que precisa de mim de pé, e onde estou? Estou no chão. Estou apenas vendo todos sermos moídos pela máquina, tragam o ópio para as crianças, elas precisam.
Que direito tenho eu de morrer? Não tenho correntes de metal no meu pés, a contemporaneidade é mais sutil que isso. Disseram-me que Lenin escreveu seus principais manuscritos na prisão, com leite, entre as páginas de outros livros. Quanta força de vontade. O projeto fútil da pós-modernidade burguesa nos roubou muitos porquês. Cada um que trate da própria execução. Tempos modernos.
Eu me levantaria para a batalha de sangue, para a guerra na rua. Penso nisso, mas mal consigo me levantar da cama. Será a solução um apocalipse para pôr as coisas em perspectiva? Esse é o mal do pensamento católico, apostólico e romano.
Sinto-me um macaco. É crime dizer isso? Sinto-me um macaco, não encontro palavras, não sei ler nem escrever. Sinto-me um animal em cativeiro. Qual o habitat natural desse tipo de primata que sente fome de alma e de mundo?
Às vezes, quando estou em uma situação muito desagradável, penso: “Em algum lugar do tempo, eu já estou em casa e isso passou”. Não fico triste nem com raiva, apenas espero o tempo. Faz 400 anos que as mulheres queimadas na fogueira pararam de queimar e foram trocadas por outras. Faz 17 anos que Michael Jackson morreu, ninguém está chorando nas ruas. O tempo é imparcial.

Sei que isso não é sinal de saúde, mas me conforta pensar que, em algum lugar do tempo, todos já morremos. Em algum lugar do tempo, o Sol vira uma gigante vermelha, e a humanidade terá partido muito, muito antes disso. Gosto de pensar que, em algum lugar do tempo, já fazem dez anos que morri.
“Besteira. Tudo isso é burrice.”
É verdade. Como eu disse, sou um primata. Me apavora pensar que daqui a 10 anos, quando eu estiver com mais de 30, minha vida ainda esteja assim, eu não conseguindo sair do ciclos depressivos, não cuidado de mim, não estudando, não me interessada em nada, não me dedicando a nada e escrevendo coisas nada originais sobre morte e vida. Teria eu ao menos lido mais livros? Vamos descobrir… Por enquanto sigo covarde demais para morrer e covarde demais para viver, um umbral que criel para mim mesmo, como todo umbral. Aos 30 já não haverá mais mãe para te impedir de morrer de fome, o que fará você? Como lidar com esse luto, o maior que poderá sentir, como sobreviverá lá se agora já consegue viver só por pensar nisso?
Ingratidão, acho que essa é a palavra. Vou morrer algum dia, sem sombra de dúvida, mas até lá preciso dar um jeito de viver.

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