fanaticaporalienstage

Queria morrer.

Eu não sei mais em que momento eu comecei a me perder, mas agora parece que eu nunca realmente comecei a viver.

Às vezes eu sinto que o mundo é barulhento demais e pequeno demais ao mesmo tempo. Como se tudo fosse intenso demais pra mim, mas ao mesmo tempo eu não tivesse espaço nenhum pra existir de verdade. Eu sinto que ninguém nunca vai me entender completamente, e isso dói, mas o que mais dói é que eu também sinto que nunca vou ser suficiente pra ninguém. Nem pros outros, nem pra mim mesma.

Eu amo muitas coisas. Eu amo pessoas, eu amo momentos, eu amo ideias. Eu consigo ver beleza nas coisas. Mas eu não consigo dizer que amo a mim mesma. E isso me faz questionar se o meu amor pelos outros é real ou se ele já nasce quebrado. Será que dá pra amar alguém sem se amar primeiro? Eu espero que sim, porque tudo que eu quero é não machucar quem eu amo. Mesmo que eu não seja suficiente, eu só queria ser pelo menos alguma coisa boa na vida deles.

Eu não quero morrer. Mas eu também não tenho medo de morrer.
Eu tenho medo de viver.

Viver dói. Viver exige coisas que eu não sei se eu tenho. Parece que sempre tem mais problemas, mais expectativas, mais responsabilidades, mais coisas que eu deveria conseguir fazer e simplesmente não consigo. Eu não quero morrer, eu só não quero viver assim — como se minhas asas tivessem sido cortadas, como se eu estivesse sangrando no chão o tempo inteiro, mesmo que ninguém veja, e ninguém veja mesmo.

Eu me sinto suja.

Eu me sinto usada.

Eu sempre tentei ser gentil. Eu sempre tentei ser doce, ser boa, ser alguém fácil de gostar. As pessoas dizem que eu sou gentil demais, que eu sou ingênua, que eu sou “boa demais pro meu próprio bem”. Mas eu não sou burra. Eu sei o que está acontecendo. Eu sei quando estão se aproveitando de mim.

Eu só não consigo parar.

Porque eu tenho medo de dizer não.
Eu tenho medo de decepcionar.
Eu tenho medo de ser abandonada.

Então eu deixo.

Eu deixei usarem minha gentileza.
Eu deixei usarem meu corpo.
E às vezes eu sinto que até minha alma foi usada.

Eu fui tocada sem consentimento. Mais de uma vez.
No meu corpo e dentro de mim.

E eu não reagi. Eu não consegui reagir. Eu só deixei acontecer.

E isso me destrói.

Porque hoje eu olho pra isso e penso que a culpa foi minha. Que eu deveria ter dito não. Que eu deveria ter me defendido. Mas eu não consegui. Eu só queria que gostassem de mim, que ficassem, que não me abandonassem.

Então eu aceitei coisas que me machucaram profundamente.

E agora eu me sinto nojenta.

Eu me sinto suja.

Eu me odeio por isso.

Eu olho pra mim e vejo alguém feia em todos os sentidos. Feia por fora — minha pele que nunca tá certa, meu corpo que não é do jeito que eu queria, minhas mãos que eu odeio tanto que evito olhar, meus hábitos como roer as unhas até estragar tudo. Feia por dentro — por ter deixado tudo isso acontecer, por não conseguir reagir, por não conseguir nem chorar direito.

Eu não consigo nem chorar às vezes. Nem sozinha. Eu tento, mas nada vem.

Eu só fico.

Às vezes eu sou extremamente pequena. Tão pequena que parece que não existe nada dentro de mim. Eu me sinto insignificante, impotente, como se eu fosse implodir.

E às vezes eu sou grande demais pra caber em mim. Meus sentimentos ficam intensos demais, confusos demais, e parece que eu vou explodir.

Eu não sei quem eu sou.

Eu só sei quem eu fui e quem eu queria ser.

E isso me deixa perdida.

Eu me sinto fora de mim a maior parte do tempo. Como se eu estivesse assistindo a minha própria vida de longe. Eu faço coisas no automático, falo coisas que eu nem gosto, faço piadas que eu nem acho graça, só pra tentar me encaixar.

Eu falo coisas explícitas que eu não gosto de falar.
Eu faço piada com coisa besta que às vezes nem tem graça.
Às vezes só deixa os outros desconfortáveis.

E eu odeio isso em mim.

Eu odeio o fato de eu falar demais ou não falar nada.
Eu odeio não conseguir ser naturalmente eu mesma.

Eu sinto que eu estou sempre errada.

Eu não sei o que as pessoas veem em mim.

Meus amigos ainda estão aqui, mas eu não entendo por quê. Eu nunca perguntei por que gostam de mim, mas já pensei muitas vezes se eles me odeiam. Eu gosto deles pelo que eles são, sem romantizar os defeitos deles. Mas eu não consigo acreditar que alguém faz isso comigo.

Minha família me ama, mas às vezes parece que é só porque é família.

Porque quando as coisas ficam difíceis, não parece amor.

Meu pai já me xingou várias vezes, e me bateu algumas. Já me chamou de filha da puta, ingrata, mandou eu me foder, e bem mais. Já xingou minha mãe, chamou ela de puta, porca, desorganizada, relaxada, preguiçosa, irresponsável e drogada. Já fez minha irmã chorar gritando com ela, tantas vezes que qualquer um perderia a conta.

Ele já olhou pra mim e disse que eu não fiz nada por ele, nem pela minha irmã. Que eu não presto pra nada. Por que eu não ligo pra ele na visão dele.

Ele coloca a culpa em mim por coisas que não são minhas.

E mesmo assim… eu amo ele.

E isso me confunde e me machuca, porque eu também tenho medo dele. Muito medo. Mesmo de longe (Eu moro em PE e ele em SC).

Eu já ouvi que eu nem deveria ter nascido. Que eu fui um acidente. Ele mesmo me disse que ele só foi saber que minha mãe tava grávida depois de 7 meses de gestação. Que não sabia nem como eu tava viva, porque ela fumava, bebia e usava droga enquanto eu tava dentro dela.

E isso fica na minha cabeça.

Eu começo a acreditar que talvez eu realmente não deveria estar aqui.

Porque por que tantas coisas aconteceriam comigo?

Por que eu fui assediada?
Por que eu fui tocada sem consentimento?
Por que eu fui humilhada, xingada, traída emocionalmente, abandonada?

Eu começo a pensar que eu mereci.

Porque não faz sentido tudo isso acontecer se eu não fosse o problema.

Eu sinto falta.

Falta de pessoas que foram embora.
Falta de amizades que acabaram.
Falta de versões minhas que eu não consigo mais acessar.

Eu sinto falta dele.

Mateus.

Mesmo tendo sido eu que terminei.

Eu pensei que estava fazendo o certo. Eu pensei que eu não era boa pra ele, que ele merecia alguém melhor, que ele estava preso comigo.

Mas e se ele me amava de verdade?

E se eu joguei fora minha única chance de ser amada?

Essa dúvida não sai da minha cabeça.

Eu lembro de um dia, um fim de tarde ensolarado. Eu estava com meus amigos e com ele. Eu ri tanto que minha barriga doeu.

Eu me senti viva.

E agora eu não me sinto mais.

E eu o vejo todos os dias, na escola, e dói, física e emocionalmente. Mas eu só espero que ele esteja bem.

Eu não consigo mais fazer as coisas que eu gostava.

Eu não escrevo mais, porque nada vem na minha cabeça.
Eu não desenho mais, pelo mesmo motivo.
Minha voz parece horrível, errada.

Eu não consigo estudar. Não consigo focar nem em uma tarefa simples. Eu esqueço das coisas. Eu não consigo manter uma rotina.

Eu esqueço de tomar banho.
Eu esqueço de beber água.
Eu esqueço de tomar meus próprios remédios.

Teve dia que eu só dormi, assisti coisas e comi muito. Eu tava tão mal que eu não fiz mais nada. Eu só lembrei dos remédios quase 10 da noite e tive que tomar tudo de uma vez. No dia seguinte eu só lembrei depois do jantar.

Eu não consigo cuidar nem de mim.

E isso me faz sentir ainda pior.

Eu sinto que eu deveria retribuir. Ser uma boa neta, dar carinho, estudar bem, compensar o esforço financeiro que fazem por mim. (Eu moro com os meus avós)

Mas eu não consigo.

Então eu me sinto ingrata.

Um peso.

Eu sinto que eu não tenho ambição. Que eu não vou chegar em lugar nenhum. Que eu não sou boa em nada.

Eu não escrevo mais. Eu não desenho mais. Eu não canto mais como antes.

Eu perdi partes de mim.

Eu me sinto inútil.

Eu já pensei em me machucar. Já me machuquei antes, com vários cortes rasos no braço. Mas nem isso me trouxe algo. Eu não gostei da atenção que veio depois.

Eu penso em morrer.

Não como um impulso momentâneo, mas como uma ideia constante.

Eu já pensei em parar de comer, parar de fazer tudo, só deixar meu corpo adoecer até morrer.

Mas eu não tenho energia nem pra isso direito.

Nem pra morrer.

Então eu fico nesse meio.

Nem viva de verdade, nem morta.

Só existindo.

E mesmo assim… eu ainda tento.

Mesmo que seja pouco.

Eu digo que vou tentar ficar viva.

Que eu vou só sobreviver.

Porque eu não quero ser um problema nem morta.

E talvez… no fundo…

ainda exista uma parte de mim que não desistiu completamente.

Mas agora…

eu estou muito cansada.

Muito, muito cansada.

(Eu tenho 15 anos, vou fazer 16 esse mês.)

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  • abril 3, 2026
    Lovey

    Eu li tudo que você escreveu, e preciso te dizer uma coisa muito importante: Você não tem culpa pelo que fizeram com você. Travar, não reagir, “deixar acontecer” — isso é uma resposta do corpo ao medo. Não te faz fraca, nem suja. Você não é um erro. Nem um peso. Nem alguém “insuficiente”. Você é alguém que só queria ser amada e não abandonada — e isso é humano. Dá pra ver que você ainda está tentando, mesmo cansada. E isso já é força, mesmo que você não enxergue. Eu sei que agora parece pesado demais, como se não fosse passar… mas sentimentos não são permanentes, mesmo quando parecem. O cansaço vem, e é válido — mente, corpo e coração também esgotam. Se você acredita em Deus, se apoia nisso. Não como obrigação, mas como um lugar de acolhimento — porque você não está sozinha. E quando estiver muito pra baixo, tenta algo simples: se lembrar que você tem valor só por existir. Não precisa provar nada pra merecer isso. Por enquanto, não precisa resolver tudo. Só continua, todo dia e um novo começo, onde encararmos desafios, é oportunidade de apreciar a beleza desse mundo, que Deus esteja contigo🕊️

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