Olá a todos, sou Kakau e tenho 17 anos. Nessa munha pequeno mas tão longa vida, eu vi, presenciei e fui afetada por muitas coisas a qual uma criança como eu nunca deveria ter sofrido.
Não vou falar lá do começo, de quando era bem nova — vou falar da minha pré-adolescência e um pouco antes disso.
Aos 10 anos de idade minha vida ja havia mudado drasticamente, meus pais que sempre brigavam mas sorriam nas câmeras se separaram e a vida de ir pra lá e pra cá começou. Eu tinha certo vício em pornografi*, sim, eu com 10 anos já estava nesse mundo adulto sem saber como(apesar que os culpados eram meu próprio pai e avô paterno que tinham vídeos no telefone e eu os via).
Mas a mudança mais drástica foi aos 11 anos, quando minha mãe começou a namorar um homem que vivia em São Paulo e então, decidiu largar tudo aqui na minha cidade pra ficar com ele; obviamente, eu fui junto, já que ela nunca me abandonaria(apesar de eu ser uma filha que acabou vindo sem ela planejar).
Meu padrasto era um príncipe, um homem carinhoso, amoroso, cuidadoso e educado, bebia de vez em quando mas nada que afetasse as coisas realmente. Me comprava doce, me levava na costas, agia como um pai que eu tinha(mas que as vezes parecia nem estar ali) e me ensinou muitas coisas, até cortar legumes!
Ele era o tipo de homem que era admirado, que apesar de viver nas favelas nunca se envolvia com nada dessas coisas…. até ele revelar que tinha uma arma sem autorização na casa de um amigo, até ele começar à morar conosco no pequeno apartamento que minha mãe pagava aluguel, até que sua bebida aumentou a dose.
De começo, foi tranquilo, ele as vezes ficava bêbado mais sempre dormia tranquilo com minha mãe ao lado e eu numa cama separada.
O lugar onde moravamos eram um só lugar, cozinha, sala e quarto no mesmo comado, o banheiro sendo dividido entre outros apartamentos(1 moça que foi uma amiga minha e um moço que nunca vinha para o dele).
As coisas pioraram, eu virei mocinha, minha primeira menstruação e as cólicas, nunca ninguém me avisou que séria tao horrível ter sangue escorrendo por suas pernas e acordar encharcada haha.
Foi ai que tudo começou a virar um inferno, meu padrasto, o mesmo homem que me olhava ‘com carinho’ começou a falar coisas nada apropriadas pra alguem da minha idade, que era 12 anos e quase sendo 14 se não me engano. Eu sempre tive um corpo bonito, e ele sempre falava que eu seria bem corpuda, suculenta e que meu namorado teria muita sorte de me ter — coxas grossas e b7nda redonda sempre era motivo dos homens me olharem.
Piprou quando nos mudamos, ele bebia mais, chegava bêbado e eu sempre estava sozinha, minha mãe trabalhando em um mercado(enquanto ele trabalhava para uma fábrica de cerveja, olha o destino).
Então– ele começou a me olhar com mais ‘fome’. Me humilhava, não deixava eu comer e almoçar direito, me empurrando da cadeira dizendo que aquilo era dele e não meu psa usar, me batia, puxava meu cabelo e meus braços, que doíam tanto na carne frágil de meu corpo pequeno.
Okay, eu sei, bem pesado né? Ou talvez não, por que vai piorar.
Eu não podia confiar em trocar de roupa, ficar de toalha e ir tomar banho no banheiro minúsculo ate pra mim que na época tinha somente 1,38cm de altura. Ele tentava ver meu corpo em desenvolvimento, tocava minhas coxas, meu peito, meu pescoço, ombro e rosto enquanto falava coisas.. nada legais, de como eu era um fardo pra minha mãe e coisas do tipo.
O assédio era constante, ainda mais por quê foi na época da pandemia, imagine a desgraça he.
As coisas pioraram, minha mãe estava grávida(e eu havia provavelmente, presenciado o feito, já que naquele dia dormia na sala pq minha cama começou a me dar alergia) e eu teria um irmão mais novo. Um rapazinho que eu amo muito, apesar do pai que ele tem ser o monstro que gerenciou o inferno na minha vida e foi meu pior carcereiro.
Continuando, ele passou a agredir minha mãe tambem – sabendo que ela estava grávida, dizendo em berros que ela havia traído ele, que ele não era pai do menino e muitas outras coisas.. okay já tá muito longo isso.
Bom, foi durante um dia de chuva em que não pude ir pra escola, minha mãe com 6 meses na barriga ainda trabalhava e ele chegou, bem mais alterado que o normal; havia bebido pacas.
Ele começou a querer a me assediar, bater e eu revidei — ah pobrezinha de mim, como poderia saber que ele teria coragem de me enforcar contra o sofá estando puto por eu estar sentado no sofá?
Eu não lembro bem oque aconteceu naquele dia, minhas memórias são osciladas e fragmentadas, algo irônico que meu cérebro fez pra não me matar mais ainda por dentro.
Eu só lembro do peso do corpo dele em mim, da dor do ar saindo dos pulmões, meu cérebro pedindo ajuda enquanto morria pouquinho em pouquinho.
Então ele me soltou, e eu pude respirar de novo, e deus, quase vomitei e desmaiei de terror. Ele só não me matou porque ouviu minha mãe abrindo o portão(onde moravamos era num estacionamento com pequenas kitnets, três no caso) e entrando.
Meses se passaram, as violências pioraram e finalmente minha mãe decidiu fugir pra nossa cidade de novo, deixando meu padrasto espalhando que eu era uma prostituta, uma puta, uma putinha que gravava vídeos pro xvide9s e postava com orgulho.
Depois de voltarmos, tive um tempo.. de paz, eu não havia contado pra minha mãe sobre os assédios e o provavelmente abuso que sofri(porque depois de viver com ele eu sentia que minhas regiões íntimas estavam ‘acostumadas’ a terem algo introduzido), escondendo tudo porque ela com 7 meses agora precisava de mim.
Foi um bom tempo, tínhamos uma casa e era tranquilo. Até, ela resolver voltar com ele — ele se arrependeu, ele não fez porque queria, era o coisa ruim dentro dele, perdia ele filha………. isso doeu mais doque tudo que sofri.
Eles compraram uma casa, eu vivia mais com meu pai e meus parentes paternos. Ai acabou o sofrimento né? Não, porque ele continuava a beber, a bater na gente, a sair sem avisar — quebrou o celular da minha mãe, não deixava ninguém olhar o dele, ameaçava socar a gente, mas o idiota esquecia que eu sobrevivi a tantos socos deles que já havia criado resistência.
O tempo passou, eles se separaram novamente, ele foi pra casa dos pais na roça e minha mãe alugou nossa casa, meu irmão ja nascido era muito pequeno e uma benção pra minha cabeça quebrada.
Foi um… tempo bom, tendo durado quase 1 ano assim, amizades foram criadas, conheci pessoas incríveis no 8° ano e muitas ainda levo no coração.
Mas ela voltou com ele de novo! Há, que maravilha, eu vivia agora mais na casa da minha vó materna, que morava na rua da frente; teve outras discussões, brigas e muito mais. No final, resultou em meu padrasto bêbado ter tentado bater no meu avô materno(e só não aconteceu porque a casa tinha grades).
Passou-se um tempo, minha mãe se separiu e voltamos a viver sozinhas e com meu irmão. Eu já sabia, mas ela havia voltado pra ele novamente.
E se passou 2 anos desde que voltamos a morar nessa casa de novo, ele melhorou realmente, nunca mais bebeu, nunca mais tocou em mim(não que eu fosse deixar, deixei claro que nunca o perdoaria) e nem na minha mãe. O inferno em casa tinha acabado, mas dentro da minha cabeça ainda existe uma luta eterna que nunca cessa.
As vezes sinto as mãos em mim, as vezes não consigo respirar, as vezes tenho nojo do meu próprio corpo e as vezes… sentia vontade de me matar.
Eu já não quero mais morrer, apesar de que o desejo ainda está aqui dentro de mim, eu tenho um namorado que me ama, um irmão que me atenta, duas melhores amigas que me mantém firme e um gato pra cuidar.
Bom, esse foi meu relato, obrigado a qualquer um que chegou aqui. Chegar nesse nível de falar todo meu passado foi um processo doloroso, demorado e sofrido, que enfrentei sozinha(ou quase, já que meu namorada está aqui ao lado, mesmo virtualmente).
Um grupo de apoio emocional e saúde mental. Desabafos anônimos, troca de experiências e apoio psicológico.